Colunistas

A articulação das bancadas BBB

"Seus integrantes não costumam fazer qualquer tipo de concessão: orgulham-se de ser ultraconservadores em todos os sentidos e, se no passado dissimulavam suas opiniões num silêncio complacente, inverteram o tom"

Um levantamento ligeiro comprova: a bancada evangélica foi, de longe, a que mais cresceu no parlamento, ao longo da última década. Em 1994, eles se restringiam a um grupo de apenas 21 deputados, 4% dos 513 que formam a Câmara. Atualmente o número multiplicou-se por quatro. E hoje eles já formam uma bancada respeitável – 80 deputados –, o que corresponde a 15,5%, a maioria vinda da Assembleia de Deus e da Igreja Universal. Sem contar aí, naturalmente, os que se declaram católicos.

O crescimento é proporcional à ênfase atualmente dada ao debate em torno de temas relacionados aos “direitos humanos”, com destaque para  eventos que vêm provocando polêmicas ruidosas como o cancelamento da mostra “Queermuseu”, em Porto Alegre, patrocinada pelo Banco Santander, e exposições de arte que contenham representações do corpo humano em situação de nudez.

Seus integrantes não costumam fazer qualquer tipo de concessão: orgulham-se de ser ultraconservadores em todos os sentidos e, se no passado dissimulavam suas opiniões num silêncio complacente, inverteram o tom. Hoje, fazem questão de participar do combate ao que classificam como ataques à moral e aos bons costumes.

Sintonia fina com Bala e Boi

Esse grupo parlamentar-religioso atua em sintonia fina com duas outras bancadas fortes e bem articuladas no Parlamento: a dos policiais/militares, conhecida como bancada da Bala (35 integrantes), ferrenhos defensores do endurecimento da legislação contra os praticantes de quaisquer tipos de crimes e favoráveis à liberação das armas; e a bancada do Boi (207 membros), formada pelos ruralistas, defensores do agronegócio, críticos da atuação das entidades ambientalistas, consideradas como contrárias à expansão da fronteira agrícola. Inclui-se aí o combate aberto à preservação das reservas indígenas, e das barricadas de contenção ao crescimento dessas áreas, sob qualquer argumento. Sem contar que, em muitos casos, um mesmo deputado “pertence” a duas dessas bancadas e circula com desenvoltura pelas três.

A articulação desses grupos alcança fortemente o setor das telecomunicações. Se levarmos em conta que a grande arma para a expansão das bancadas evangélicas, com ênfase nos fiéis pentecostais, é a pregação religiosa no rádio e na televisão (20% da programação atual das tvs de sinal aberto), entende-se a razão da presença maciça desses parlamentares na Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara, onde   ocupam 40% das 30 cadeiras. Até 1988, as outorgas das concessões de rádio e TV vinham diretamente da Presidência da República. A nova Constituição mudou as regras. O último a pegar carona no modelo antigo foi Sarney.

Segundo o “Pedro Collor” Ricardo Murad, cunhado de Roseana Sarney, a família Sarney controla hoje, direta ou indiretamente, 80% das rádios e TVs do Maranhão. Durante sua presidência, foram feitas 1.022 concessões (rádio e TV). E mais 66 foram entregues via Congresso. A nova Constituição transferiu ao Congresso a prerrogativa das concessões. Como o primeiro passo para uma concessão é a aprovação pela Comissão de Ciência e Tecnologia, fica claro o interesse dos evangélicos nesta joia da coroa. Há tempos eles entenderam que a frase “comunicação é poder” não é mera figura de linguagem.

Interesses comuns entre os BBBs

Como as pautas que guardam relação com os direitos humanos têm tudo a ver, direta ou indiretamente, com os interesses da bancada da bala, entende-se por que as três bancadas costumam atuar em sintonia fina. A onda conservadora se espraia no Brasil e recebe forte apoio externo, principalmente dos Estados Unidos, corporificado na figura de Donald Trump, de líderes europeus e dos daqui ao lado, desta saltitante latino-américa, onde as burradas, falcatruas e pseudo-espertezas da esquerda permitiram o crescimento vertiginoso do conservadorismo direitista (que valha o pleonasmo).

Fácil concluir que, atuando em acordo e boa sintonia, essas três bancadas, pela curva ascensionista que se desenha ao longos dos últimos anos, se não acontecer nenhum abalo ao longo do trajeto, tendem a ser as grandes beneficiárias dos votos de 2018. Com as consequências que o distinto leitor e a elegante senhora que me leem até aqui podem pressentir.

Nos 500 anos da Reforma Protestante, vale refletir: será que Lutero aprovaria a sanha com que líderes pentecostais como Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, Bispo Macedo, da Universal, e Valdomiro Santiago,  aquele do chapéu de rodeio, da Igreja Mundial, empurram os fiéis ao pagamento do dízimo com a promessa de prosperidade em vida, antes mesmo da conquista do paraíso? “É um retorno perigoso à doutrina que Lutero condenou: a de que você pode comprar a salvação e, quanto mais compra, mais leva em troca”, responde o professor MacCulloch, da Universidade de Oxford.

Que Deus, Jeová, Alá, Oxalá, Krishna e todos os deuses conhecidos e por conhecer nos protejam. Mas, se puderem vir unidos e de mãos dadas em nosso socorro, a garantia será maior. Portanto:

- Amém! Namastê! Aleluia! Salaam aleikum! Axé! Saravá!

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Sobre o autor

Paulo José Cunha

Paulo José Cunha

* Paulo José Cunha é professor, jornalista e escritor.

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