Quarta, 29 de Março de 2017

Colunistas

Gaza: o saldo macabro

“Israel poderá, se quiser, até fazer o que teria sido a política correta desde o início: limitar-se a abater os foguetes e deixar o Hamas gastá-los sem promover aqueles terríveis bombardeios que mataram uma quantidade absurda de mulheres e crianças”

A retirada “unilateral” das tropas israelenses é coerente com o comportamento de Netanyahu desde o início. Vejam o que sucedeu na trégua: anunciando o “sequestro” de um dos seus oficiais, o exército de Israel realizou bombardeios indiscriminados particularmente terríveis em Rafah dentro de uma tática que um de seus porta-vozes chamou de the Hanibal option (opção Aníbal), referindo-se ao grande general de Cartago que não deixava pedra sobre pedra. Trocado em miúdos, isso quer dizer que Israel, diante de uma captura para evitar um novo “caso Gilad Shalit” — o cabo trocado por mais de mil prisioneiros palestinos –,  passou a arrasar tudo no caminho de uma eventual rota de fuga, inclusive correndo um risco enorme de matar o próprio prisioneiro caso vivo estivesse.

Rafah foi bombardeada inclusive sem os  sms que são passados aos moradores de Gaza para sumirem do mapa em poucos minutos pois vem bomba. Houve um número particularmente elevado de vítimas civis. O Hamas visivelmente não sabia bem o que havia ocorrido no terreno. Israel aproveitou para anular o cessar fogo –que não queria porque se dava num contexto de uma negociação política envolvendo os EUA e o Egito–  e usou toda sua máquina de propaganda, histérica,  para culpar o Hamas de ter deliberadamente quebrado a trégua. Percebe-se agora que é incerto sequer que tenha, de fato,  havido,  violação proposital da trégua partindo da direção política do Hamas.

Num combate “assimétrico” como esse com o Hamas, não podendo usar nenhum dispositivo de comunicação eletrônica, com grupos escondidos dias a fio em túneis.  Há diversas facções no próprio Hamas e outros grupos como o  Jihad, os comitês de resistência e os ligados à Al Qaeda. O incidente parece típico do fog of war:  a névoa da guerra. Mas serviu politicamente para Israel e levou o próprio presidente Obama a protestar contra o “sequestro” e a “violação da trégua”. Aparentemente foi feito de bobo.

Israel já tinha feito algo parecido logo no início do processo quando manipulou o sequestro e assassinato, quase imediato dos três adolescentes na Cisjordânia. O crime abjeto, hoje se sabe, foi praticado por terroristas agindo por conta própria. Desde o início, o Shin Beth, serviço antiterrorista israelense, sabia que eles estavam mortos – havia uma chamada por celular durante a qual se ouviram os disparos e o riso dos assassinos. Mas cultivou-se durante quase duas semanas o mito de um sequestro em curso  como pretexto para efetuar centenas de prisões, enormes operações e matar nove palestinos que protestavam na Cisjordânia.

No caso do tenente, agora o exército de Israel confirma que foi morto no combate junto ao túnel e que a conclusão se deve a exames de medicina legal com DNA de partes humanas encontradas no local. Não há explicações maiores mas a conclusão óbvia e macabra foi que o tenente morreu na explosão provocada por um homem bomba suicida, que partes de seu corpo ficaram no local e outras foram levadas pelos combatentes do Hamas (ou outro grupo) em fuga pelo túnel, pois há precedentes de troca de restos humanos por prisioneiros, no caso do Hizbollah libanês, uma troca altamente questionável realizada na época de Ariel Sharon. Atualmente o Hamas detêm restos de corpos de dois militares israelenses.

O fato do tenente ter morrido era então susceptível de se saber desde o início mas o governo de Netanyahu preferiu promover uma encenação de “sequestro” que constrangeu Obama, humilhou John Kerry e enganou o próprio público israelense (inclusive a família do militar).

A artimanha começou a se virar contra Netanyahu quando a família exigiu que as tropas permanecessem em Gaza até achá-lo. Ao mesmo tempo a extrema direita – com apoio da maioria da opinião pública!— pressionava para que o exército israelense “fosse até o fim”.  Netanyahu, que é refém estratégico dos colonos e não acredita nem um pouco em paz com os palestinos, taticamente,  é sensatamente prudente e sabe perfeitamente que se Israel já perdeu mais de 60 solados ocupando apenas as áreas periféricas de Gaza para debelar os túneis  – providência que não tem como não ser apoiada–  ocupar a cidade de Gaza com mais de um milhão de habitantes e caçar o Hamas prédio a prédio e dentro do labirinto subterrâneo de abrigos provavelmente produziria mais de mil baixas, além da morte de dezenas de milhares de palestinos. Israel ultrapassaria a tênue fronteira entre o crime de guerra que já praticou em diversas ocasiões ao genocídio, lato senso. Por isso, junto com as poucas cabeças decidiu manter o foco da operação na destruição dos túneis.

Agora Israel vai manter uma presença reduzida em alguns pontos estratégicos e ficará “administrando” os foguetes do Hamas. A organização sofreu perdas importantes , provavelmente uns 400 a 500 combatentes dentre o total de 1.800 mortos em Gaza. Possui cerca de 10 mil a mais. Isso inclui milicianos pouco adestrados. Mas podemos seguramente se apostar que continua com uns dois a três mil combatentes bem treinados e prontos para o sacrifício.  Está longe de ter sido ferido de morte. Perdeu sua rede de túneis ofensivos para penetrar em Israel –pode ser que subsista um ou outro—e seu arsenal de foguetes deve ter sido reduzido em 2/3 dentre os destruídos e disparados quase inutilmente. A eficácia deles foi, militarmente falando, próxima de zero. Mataram só três civis. Politicamente conseguiram alguma coisa na medida em provocaram uma breve interdição do aeroporto de Tel Aviv e mandaram a população israelense se abrigar com frequência. Israel poderá, se quiser, até fazer o que teria sido a política correta desde o início: limitar-se a abater os foguetes e deixar o Hamas gastá-los sem promover aqueles terríveis bombardeios que mataram uma quantidade absurda de mulheres e crianças. Hamas terá muita dificuldade de repor seu arsenal, agora que o Egito é governado por um inimigo:  o general Sisi.

O Hamas obteve uma vitória política de curto prazo ao reverter seu desgaste político dos últimos meses junto ao público palestino antes da crise, ao enfrentar valentemente um exército tão poderoso,  fazendo a Autoridade Palestina e o presidente Mahmud Abbas aparecerem como uns “bundões”. Mas, quando a poeira baixar e os tiros e explosões pararem e os moradores de Gaza e da Cisjordânia começarem a contemplar mais friamente o preço absurdo pago pela população de Gaza por causa da completa indiferença do Hamas em relação ao seu sofrimento,  ao disparar seus foguetes de dentro do tecido urbano mais denso do mundo sem se importar com as consequências, o Hamas também terá um preço político a pagar.

O momento será então novamente  favorável à retomada do processo de paz.  Mas enquanto Netanyahu e seus aliados da extrema-direita permanecerem no governo de Israel e com uma maioria no Knesset, isso não acontecerá.  O tempo a seguir não será mais de espera para o macabro próximo round. O maior erro desse brilhante tático, mas deplorável estrategista e profundo mau caráter que é Bibi Netanyahu, é acreditar que o tempo joga a seu favor. Os fatos da Líbia ao Iraque não apontam nesse sentido e o tempo para um acordo com a parte moderada do mundo árabe, onde se incluem os palestinos, está se esgotando ao mesmo tempo em que se esgotam as chances para a solução de dois estados vivendo em paz lado a lado.

 

Assine a Revista Congresso em Foco em versão digital ou impressa

Continuar lendo

Sobre o autor

Alfredo Sirkis

Alfredo Sirkis

* Deputado federal pelo Partido Verde (RJ), do qual é um dos fundadores, tem 60 anos, e foi secretário de Urbanismo e de Meio Ambiente da cidade do Rio de Janeiro e vereador. Jornalista e escritor, é autor de oito livros, dentre os quais Os carbonários (Premio Jabuti de 1981) e o recente Ecologia urbana de poder local. Foi um dos líderes do movimento estudantil secundarista, em 1968, e viveu no exílio durante oito anos.

Outros textos de Alfredo Sirkis.

Curtir Congresso em Foco no Twitter e Facebook:



comments powered by Disqus
Publicidade Publicidade